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Os Desafios da Educação a Distância no Contexto Latino-Americano

14:27 - de 06/10/2008 | Geral, Notícias

OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
NO CONTEXTO LATINO-AMERICANO

Daniel Luzzi (dluzzi@cidadeinternet.com.br)

Andrea Luswarghi ( andrealus@brasilnet.net)

Site: http://www.abed.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?UserActiveTemplate=4abed&infoid=133&sid=116  (Associação Brasileira de Educação a Distância-ABED)

Acesso em: 10/06/08

RESUMO
A educação a distância na região vem experimentado um crescimento sem precedentes no último decênio; no entanto, esta explosão acontece em detrimento da qualidade da oferta educativa e, dessa maneira, tem gerado a desvalorização das certificações outorgadas em cursos a distância.
Este é o desafio que educadores e organizações educativas latino-americanas, governamentais e privadas, devem enfrentar para estar a altura das demandas de aprendizagem que crescem vertiginosamente na contemporânea Sociedade da Informação.

INTRODUÇÃO
Vivemos hoje em uma sociedade de aprendizagem. A cultura atual nos demanda formação permanente e reciclagem profissional, alcançando a todos os âmbitos produtivos, como conseqüência, em boa medida, de um mercado de trabalho complexo, mutável, flexível e inclusive imprevisível, junto a um acelerado ritmo de mudança tecnológica, que nos obriga a estar aprendendo sempre coisas novas.

No entanto, esta cultura de aprendizagem avança para além dos espaços educativos formais, como expõe Pozo (1996), a aprendizagem acontece “não só ao largo de toda a nossa vida, senão durante a extensão de cada dia”. Assim, nossas necessidades de aprendizagem não só estão relacionadas ao âmbito profissional, já que nos dedicamos a adquirir conhecimentos culturalmente relevantes para nossa inserção social, como são por exemplo os estudos de idiomas ou informática.

Além disso, nossa interação quotidiana com a tecnologia nos obriga a adquirir novos conhecimentos: aprender a manejar automóveis, caixas eletrônicos, máquinas expedidoras de passagens, máquinas automáticas de bebidas, televisores sofisticados, computadores etc. Assim mesmo, existem outras necessidades de aprendizagem ligadas ao ócio. Quando acabamos de aprender todo o anterior, aprendemos a nadar, a esquiar, a tecer, a pintar, a dançar, a cantar, a jogar cartas, xadrez, a tocar algum instrumento etc.

Sem lugar a dúvidas, vivemos em uma sociedade de aprendizagem. Esta demanda de aprendizagens contínuas e massivas é uma das características que definem a sociedade atual. Mas não se trata apenas de aprender muitas coisas, senão de  aprender coisas diferentes e em um tempo escasso, dado o grande volume de informação que devemos processar, e a velocidade de mudança e inovação, que nos exige o aperfeiçoamento constante ao longo de toda a vida.

Por isso a UNESCO, desde o início da década de 70, tem investido na necessidade de colocar em prática o conceito de educação permanente, a fim de gerar sistemas que possam responder à necessidade permanente de aprendizagem que a sociedade atual exige de seus cidadãos.

Na busca de uma solução eficaz aos desafios propostos pela atual sociedade às organizações educacionais, surge a revalorização das modalidades de educação semi-presencial e a distância. Estas modalidades educativas começam a se desenvolver em sua terceira geração, onde os recursos das mídias tradicionais - texto, áudio e vídeo – são potencializados a partir de sua fusão na internet.
Esta poderosa mídia digital otimiza e barateia a distribuição de informação áudio-visual e textual, abrindo inúmeras alternativas educativas e surgindo como alternativa para responder ao escasso tempo de que as pessoas dispõem; à dificuldade de deslocamento no tráfego dos grandes centros urbanos; e à impossibilidade de contar com os especialistas necessários em cada região para estruturar cursos e programas de alta qualidade.

Neste sentido é que a educação a distância passa a ter um papel determinante no processo de formação e atualização de profissionais e cidadãos, que hoje possuem uma dupla cidadania: a específica de seus países e uma cidadania mais ampla, em construção, que implica ser cidadão da região e do mundo.

O DESCRÉDITO  EM EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
 

No entanto, os programas de educação a distância sofrem, “em alguns países, de uma escassa credibilidade e igualdade de reconhecimento e valorização dos títulos obtidos”, tal como enuncia a UNESCO, “historicamente falando, a maioria dos países têm tido experiências com programas e instituições de baixa qualidade, o que implica em uma pobre reputação desta forma de estudo”.

Na região latino-americana, a educação a distância se viu submetida a numerosos questionamentos, derivados por um lado, das tristes experiências de pessoas que, sem parâmetros para selecionar ou eleger, caíram presas de comerciantes sem ética, que vendem “cursos a distância” e, em realidade, entregam livros on line, materiais escritos com os quais os alunos, sozinhos, não têm condições de aprender.

Por outro lado, estes programas têm sido questionados pela crença dos planejadores de que um curso a distância se faz transformando uma aula presencial em um módulo escrito acompanhado de exercícios, quando na realidade, a “produção” de um bom curso a distância deve ter em conta, as necessidades do público a quem vai direcionado, e a partir delas a produção de metodologias pedagógicas, estratégias e recursos didáticos, mídias e softwares, realizados por uma equipe interdiciplinar, formada de professores (expertos em conteúdos), pedagogos, comunicadores e especialistas em informática.

Muitos planejadores pecam por não reconhecer que a educação a distância não pode tentar traduzir com novas tecnologias os tradicionais paradigmas pedagógicos, mas requer novas aproximações didáticas e inovação no usos das tecnologias de comunicação e informação disponíveis, considerando a complexidade do processo de ensino-aprendizagem.

Outros por não compreender que a necessidade de “aprender a aprender” é  outra das características que definem a cultura de aprendizagem, dado que temos que aprender temas variados e complexos e aplicá-los a contextos diversos, que se mantém em evolução permanente. Por isso, em virtude da diversidade de necessidades de aprendizagem, é inadequado continuar com a idéia simplificadora de que uma única educação, teoria ou modelo de aprendizagem possa dar conta desse desafio.

Outra das dificuldades encontradas, e na qual também se fundamenta a forte evasão desta modalidade educativa, que gira entre 60% e 90%, se refere aos cursos organizados por prestigiosas instituições internacionais, que oferecem pacotes educativos globais com uma grave descontextualização de conteúdos e metodologias. Ou seja, pela escassa atenção prestada às características concretas que apresentam os sujeitos de aprendizagem, produzindo uma massificação conceitual que não responde às necessidades dos alunos, formando profissionais que não possuem os conhecimentos necessários para sua (re)inserção no mercado de trabalho de seus países de origem.

Outro dos problemas mais comuns em programas de educação a distância é a escassa comunicação promovida entre alunos, tutores e professores, que gera isolamento e empobrecimento no tratamento da informação, falta de motivação e limita o potencial de transferência dos conhecimentos à prática, a outras realidades ou problemas.

UMA NOVA VISÃO
Uma resposta à complexidade dos processos de formação de recursos humanos que a sociedade atual demanda, depende da criação estratégica de um espaço de produção e difusão de conhecimentos atualizados, em linguagens didáticas, através do uso de todo o potencial das novas tecnologias de comunicação e informação. Aí reside a inovação e a excelência de programas e cursos a distância.

Uma oferta educativa que se constitua a partir do diagnóstico das necessidades de formação da população alvo e de suas características culturais, elemento central do planejamento educativo e das estratégias de comunicação.

Que se caracterize pela elaboração de materiais diversos e adaptados a cada uma das realidades em que se desenvolvem as atividades educativas, não só no que diz respeito à elaboração de conteúdos conceituais, senão também às experiências de aprendizagem e às atividades de cada um dos módulos que compõem o curso ou programa.

Uma estratégia pedagógica dinâmica, é dizer, com programas que sejam atualizados permanentemente, respondendo ao acelerado ritmo de mudança da sociedade do conhecimento e do mercado de trabalho atual, superando assim o anacronismo em que, cedo ou tarde, caem os conteúdos e programas dos sistemas presenciais. 

Uma sólida estrutura tecnológica/comunicacional que seja articulada por uma estratégia pedagógica, que considere que toda ação desenvolvida para melhorar a comunicação entre os alunos e os docentes é pouca, e assim valorize uma conexão mais próxima e pessoal, a disposição permanente de tutores, em horários rotativos, permitindo o acesso de qualquer pessoa que sinta a necessidade de apoio; uma equipe monitorada por um diretor acadêmico que se encarregue de resolver os problemas conceituais, respondendo para todo o conjunto de alunos participantes, a fim de enriquecer o processo de aprendizagem do grupo.

Um oferta educativa que permita tirar o estudante do isolamento característico da educação a distância, compartir com o resto de seus companheiros,  recorrer sempre que possível à consulta de docentes de outros países; não só tendo em conta a possibilidade de diálogo de saberes e experiências, que dotam o estudante de um poder adicional de transferência a diversas situações da vida, mas sobretudo construindo pontes para a contenção afetiva dos alunos frente ao novo conhecimento, em pleno processo de equilibração conceitual.

Uma proposta que permita construir aulas globais, recorrendo aos especialistas dos diferentes países da região e do mundo, na formação de um corpo de professores altamente especializados em cada uma de suas áreas de conhecimento.

Uma estratégia pedagógica que, através de atividades diversificadas e abertas, favoreça a transferência de conhecimentos aos mais variados contextos profissionais, que promova a auto-aprendizagem, criando possibilidades para que o aluno aprenda a aprender, concedendo-lhe autonomia. 

Um programa que contemple a necessária automatização de conhecimentos básicos, fundamentalmente procedimentais, que permita ao aluno liberar recursos cognitivos para a resolução de problemas práticos, com eficiência e eficácia, e ao mesmo tempo sejam funcionais em novas situações de aprendizagem.

Um programa que potencialize a participação de empresas e de outras entidades, para conseguir incidência máxima nos processos de transformação e melhorias tecnológicas e sociais, colaborando na criação, estabelecimento e gestão de novas iniciativas que contribuam para formar agentes sociais transformadores.

Em síntese, uma oferta educativa que fomente a promoção de atividades ligadas à formação permanente, à extensão tecnológica e à realização de projetos de cooperação internacional, para melhorar o potencial dos profissionais e dos setores econômicos e sociais na resolução de suas necessidades de aprendizagem.

Muito temos avançado no conhecimento dos processos envolvidos na educação semi-presencial e a distância de adultos, no entanto, ainda não pudemos superar a carência existente na sistematização do conhecimento de nossas práticas, mas certamente elemento central na determinação do êxito ou fracasso de nossos processos e programas educativos.

Temos que deixar de nos ver como competidores e começar uma verdadeira rede que não se encerre nos confins de uma instituição, localidade ou país, mas que se abra à região, compartilhando e construindo, em conjunto, sistemas educativos a distância de alta qualidade. Neste sentido, devemos assumir também a responsabilidade que nos compete no processo de mercantilização educativa em curso, devemos começar a pensar na elaboração de uma organização regional que possa certificar a qualidade educativa de nossos programas.

Este é o desafio que devemos enfrentar para preservar não só um mercado educativo próprio, brasileiro e latino-americano, mas uma formação adequada às necessidades culturais, sociais, políticas e econômicas de nossa população.
 

Currículos resumidos

Daniel Luzzi

• Licenciado em Ciências da Educação. Universidade de Buenos Aires/ UBA.
• Pós-graduado em Planejamento Social / OEA
• Mestre em Gestão Ambiental. Cátedra UNESCO
• Doutorando em Pedagogia. UNED. Madri.
• Consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. PNUD/ONU
• Consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento. BID
• Consultor Programa das Nações Unidas para o médio Ambiente. PNUMA/ONU
• Assessor da Comissão de Ecologia do Senado da Nação Argentina.
• Assessor do Governo da província de Buenos Aires.
• Consultor da Secretaria de Política Ambiental da Presidência da Nação Argentina.
• Observador Internacional e Conferencista Internacional do MEC e IBAMA, para as primeiras Conferências Nacionais de Avaliação de Programas.
• Professor Titular de Educação Ambiental, Mestrado em Gestão Ambiental, Cátedra UNESCO / COUSTEAU em ECOTECNIA, Universidade Nacional de General San Martín.
• Professor convidado da Universidade Nacional Autônoma de México, Centro de Investigações Interdisciplinárias; da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil; e da Universidade de Buenos Aires, entre outras.
• Jornalista de pesquisa e opinião do Diário Clarín, e de revistas Ecologia e Negócios, Ecogestión para o Desarrolho Sostenible e revista Viva.
• Membro do Conselho Editorial Internacional da Revista Científica Latino-americana de Educação Ambiental, da Universidade Autônoma de México.
• Membro da Comissão Internacional de Educação Ambiental da UICN, regional latino-americana.
• Livros publicados: artigo no livro “La Complejidad Ambiental”, editado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a Universidade Autônoma de México (UNAM) e a Editorial Século XXI; artigo e compilação do livro “Cuencas Hídricas, Contaminação, Avaliação de Riesgos y Saneamento”, para o Instituto Provincial de Médio Ambiente da Governação da Província de Buenos Aires; cartilhas de Educação a Distância para o Programa de Capacitação para Microempresas Produtivas, Governo da Província de Buenos Aires. Módulos de Educação a Distância,  “Introdução a Educação Ambiental” e “Problemáticas Ambientais Globais”, Programa Desenvolvimento Institucional Ambiental, Secretaria de Recursos Naturais e Desenvolvimento Sustentável, Presidência da Nação, Banco Inter-americano de Desenvolvimento (BID).
Andrea Luswarghi

• Graduada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo (Univ. Federal de Santa Catarina – UFSC)
• Pós-graduada em Educação a Distância no Depto. de Eng. de Produção (UFSC)
• Ex-repórter e redatora da editoria MUNDO da Folha de São Paulo
• Professora do Curso de Comunicação Social/ Univ. do Sul de Santa Catarina (UNISUL)
• Assessora da reitoria (Programa UNISUL Abert@) para Educação a Distância e Tecnologias de Informação:
• Ex-repórter, produtora e editora da RBS TV Florianópolis
• Ex-assessora de Imprensa e Organização de Eventos do Departamento de Apoio à Pesquisa (UFSC)
• Ex-pesquisadora da Oficina Pedagógica de Multimídia, Departamento de Educação    (UFSC)




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