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Novos Caminhos no Ensino a Distância (1994)

14:17 - de 05/27/2008 | Geral, Notícias

Novos Caminhos no Ensino a Distância (1994)
José Manuel Moran  - jmmoran@usp.br
Professor de Novas Tecnologias da ECA-USP

Artigo publicado em Informe CEAD - Centro de Educação À Distância.
SENAI. Rio de Janeiro, Ano 1, n. 5, out/nov/dez 1994, p. 1-3 
Fonte:http://www.eca.usp.br/prof/moran/distanci.htm#propostas (Acesso: 16/05/08)

Apresentação
Estamos muito atrasados no ensino a distância. Temos muitas poucas experiências significativas nessa área no Brasil, se olhamos para outros países latinoamericanos e europeus. Agora que queremos modernizar todas as nossas estruturas sociais, que estamos entrando na sociedade da informação, precisamos descobrir as formas de ensino à distância mais adequadas para a nossa realidade, junto com novas formas de ensino presencial.A discussão ensino presencial ou não presencial está cheia de preconceitos. Ambos são necessários, têm vantagens e desvantagens e, quando combinados, nos oferecem melhores resultados. A questão hoje é como modificar o processo de ensino-aprendizagem convencional e como introduzir formas de ensino-aprendizagem inovadoras, tanto presenciais como não presenciais.Acompanhamos atualmente um boom de tecnologias de comunicação que podem facilitar processos diferenciados de ensino a distância. Em todos os níveis de ensino podemos introduzir diversos formatos de ensino a distância, desde o ensino fundamental até o de altíssima especialização. Em todas as áreas educacionais precisamos implantar e avaliar iniciativas corajosas de ensino inovador. Mas, por outro lado, não podemos esperar do ensino à distância a panacéia para todas as mazelas acumuladas ao longo de tantos planos governamentais desencontrados.

Níveis diferenciados de ensino a distância

É importante ampliar o conceito de ensino a distância, para poder incorporar novas possibilidades que as novas tecnologias de comunicação propiciam a todas as modalidades de educação.

-Ensino regular com uso de tecnologias a distância

Os alunos de cursos regulares podem, dentro e fora da sala de aula, receber materiais - como vídeos, programas de computador, jornais, através de satélite, de redes eletrônicas, de áudio ou vídeo-conferência, dos correios. Os alunos podem comunicar-se com outros alunos, professores com professores, professores podem orientar alunos, tirar suas dúvidas através do telefone, do computador, do videofone. Todas as escolas de ensino formal precisam abrir-se para o mundo, para a vida, incorporando programas via televisão, vídeo, cabo, satélite. As crianças, que pesquisam os mesmos assuntos com as de outras escolas e cidades e intercambiam seus resultados, ganham uma nova motivação. A sala de aula não fica confinada a quatro paredes, se abre para outras formas de comunicação e de aprendizagem. Neste sentido, todas as escolas precisam incorporar formas de aprendizagem e interação a distância, junto com as presenciais

-Ensino regular com tecnologias a distância substitutivas

Centros menos avançados ou carentes podem receber programas, aulas e outros tipos de apoio de outros centros mais ricos e equipados. Por exemplo, em escolas da periferia ou rurais, onde faltem determinados professores qualificados, os alunos podem acompanhar ao vivo essas aulas dadas em outros centros, por professores qualificados, através da televisão ligada por circuito fechado ou outro sistema. As aulas são registradas por câmera numa escola, transmitidas ao vivo e assistidas por alunos que estão nas escolas carentes, podendo estes fazer perguntas e tirar dúvidas através de sistemas de áudio.As tarifas de comunicação (redes, telefone…) seriam amplamente subsidiadas, para tornar viáveis o seu uso na educação.

-O ensino regular aberto

São cursos presenciais que prevêm uma parte deles serem realizados a distância. As aulas podem ser combinadas com alguns materiais, tempos de ensino não presencial. Algumas matérias optativas ou específicas de um curso regular podem ser realizadas através de qualquer sistema de comunicação não presencial. Algumas matérias são dadas sob a forma de tutoria, de estudo dirigido, de materiais através de redes eletrônicas ou de vídeo. Os alunos têm que participar desses cursos, mas são dados de forma diferente do que os presenciais. Esta fórmula poderia acontecer em todos os níveis de ensino regular, mas, sem dúvida, na universidade é mais urgente a sua implantação. É absolutamente indispensável hoje a combinação de aulas presenciais e não presenciais no ensino universitário.

-Ensino regular a distância monitoriado

São cursos que dão títulos reconhecidos pelo Ministério de Educação, de nível médio ou superior, onde o aluno se inscreve, e lhe é assignado um professor orientador ou tutor, que o acompanha, em períodos definidos, no andamento do curso à distância.Alguns cursos podem exigir períodos de aulas presenciais em determinado campus, como acontece, por exemplo, na Open University da Inglaterra e na UNED -Universidade Nacional de Educação a Distância- da Espanha.

-Ensino regular a distância não monitoriado

São, por exemplo, os telecursos até agora existentes no Brasil, onde os alunos só são avaliados ao final do processo. Pressupõe-se que o aluno está acompanhando os cursos pela televisão e comprando os fascículos, e que estuda nos tempos livres para poder passar nos exames finais preparados pelas Secretarias da Educação. Estes cursos costumam durar a metade do tempo dos convencionais.-Cursos livres a distânciaSão cursos de atualização que utilizam tecnologias de comunicação e que podem ser feitos por qualquer pessoa e que dão direito a certificados. Podem ser de nível básico, médio, superior ou de alta especialização. Fazem parte da necessidade de educação permanente. Por isso a demanda por esses cursos é enorme. Temos que oferecer cursos principalmente para os que já saíram da escola e querem continuar atualizando-se.Precisamos investir pesado em todas as formas e níveis de ensino a distância, criar a mentalidade de que o ensino a distância não é algo totalmente diferente do presencial e de que o ensino formal também precisa do auxílio de tecnologias de comunicação a distância. O princípio básico é de que o processo de ensino e aprendizagem tem que superar as barreiras das paredes da sala de aula e incorporar fórmulas flexíveis de acessar novas informações, de criar estruturas abertas de interação, de integrar professores e alunos com outros professores e alunos da mesma cidade, do mesmo país e de outros países.

Algumas propostas

Hoje temos que pensar em incorporar tecnologias novas junto com as já conhecidas para diferentes processos de ensino-aprendizagem. Qualquer processo de ensino a distância é caro, e nem sempre os resultados são os esperados. No ensino à distância o problema principal não é o tecnológico, embora há muitas resistências ao novo, mas mudar a mentalidade da necessidade absoluta da presença.Necessitamos investir mais em formação de professores, de monitores e em equipamentos, mais do que em prédios. Além dos programas feitos para a televisão convencional, via satélite, podemos equipar as escolas com antenas parabólicas de transmissão direta, e oferecer, a toda a rede escolar, programas nossos e de países estrangeiros que estão há mais tempo investindo na educação através da televisão e vídeo. As Universidades Abertas a Distância da Inglaterra e da Espanha possuem materiais interessantíssimos para formação de professores, que poderiam ser adaptados rapidamente no Brasil e exibi-los, junto com materiais produzidos mais especificamente para a nossa realidade. Professores e alunos poderiam ter, como na Inglaterra, programas de televisão e vídeos para todas as matérias, que podem ser exibidos ao vivo durante os horários de aula, ou ser gravados para utilização posterior ou comprados aparte, como kits de vídeo e de texto.Na Inglaterra as escolas possuem programas de televisão e de vídeo para todas as matérias e idades, porque o parlamento obrigou às redes comerciais a destinarem 25% dos seus lucros para a educação. No Brasil bastaria que o Congresso obrigasse às emissoras comerciais brasileiras de televisão a destinar dez por cento dos fantásticos lucros que auferem, para que tivéssemos, em pouco tempo, verbas mais do que suficientes para investir pesado em materiais audiovisuais e impressos para todas as formas e níveis educacionais.Juntar todas as universidades e outras instituições voltadas para o ensino -como o Senai e o Senac- e fazer com que cada uma crie materiais e programas nas áreas onde for mais competente, evitando a duplicação de esforços e de despesas. É uma idéia simples, mas que, na prática, esbarra no individualismo dos professores universitários, na luta por verbas e vantagens institucionais, na falta de continuidade dos projetos e na guerra surda entre universidades públicas e particulares. Ao mesmo tempo precisamos sensibilizar as empresas para dar suporte econômico a estes projetos.Temos que levar em consideração que quanto maior é a duração dos cursos, mais obstáculos surgem, as pesssoas desistem mais Por isso, precisam de maior apoio institucional (telepostos, tutoria)Convém investir no ensino de ações curtas, intensivas, de formação contínua.Os cursos que estão dando mais resultados no exterior são em formação empresarial, com curta duração e autofinanciamento.É urgente investir em sistemas de vídeo e audio-conferência. Potencializar a utilização da Rede Executiva da Embratel a custos subsidiados para a educação. Precisamos organizar seminários e cursos de atualização para áreas de ponta como biotecnologia, engenharia genética, etc. Assim manteríamos os técnicos e especialistas trabalhando nas empresas, sem necessitar viajar tanto para o exterior para manter-se atualizados. A Comunidade Europea mantém programas de ensino à distância para grandes especialistas. Os cursos são gravados em Paris e transmitidos para vários países, onde há professores monitores a quem recorrer para dúvidas. A Universidade de São Paulo está completando a instalação de fibra ótica em todos os seus campus. O SENAC do Estado de São Paulo está criando centros de comunicação através de vídeo nas principais cidades, o que permite processos interativos de vídeo.Devemos incentivar o uso de redes eletrônicas na educação. De forma isolada ou integrada com outras tecnologias. As redes como a Internet permitem que professores, alunos e cidadãos em geral possam ter acesso a informações a distância, a bancos de dados, discutir os mesmos assuntos entre sí, participar de grupos de trabalho, de pesquisas conjuntas. O governo pode incentivar o uso de redes eletrônicas para todos os níveis de ensino.Uma modalidade que depende de uma boa infraestrutura de fibra ótica é a da transmissão de imagens e sons e dados através do computador. Fazer videoconferência, trocar imagens, sons através de redes eletrônicas como os programas Netscape, Mosaic ou Explorer da WWW na Internet é um caminho para certos cursos com menos pessoas, principalmente na pós-graduação. Com tanta gente querendo fazer pós-graduação e não podendo sair das suas cidades, justifica-se que se usem redes eletrônicas para orientação de teses, para acompanhamento de algumas disciplinas a distância, para não ter que deslocar tanta gente para as grandes cidades, deixando desguarnecidos cursos já carentes.Cursos de ensino à distância baseados em tecnologias interativas caracterizam-se por custos fixos relativamente baixos, uma vez que possibilitam um acesso fácil a professores sem a necessidade de materiais de alto custo, mas têm custos marginais relativamente altos.principalmente com telecomunicações e professores, porque não admitem um número alto de alunos se queremos manter um alto grau de interatividade. Por outro lado, estas midias provocarão um grande impacto na educação, da mesma forma que já o vem provocado nas áreas dos negócios e da indústria. Nas universidades convencionais o interesse pelas redes eletrônicas de comunicação é crescente, ao mesmo tempo em que surgem muitas redes não acadêmicas, unindo pessoas, grupos e instituições em torno de interesses sociais comuns.Há um mundo aberto para novas formas de comunicação educacional. Para isso precisamos de vontade política, de investimentos em projetos reais, com o mínimo de burocracia, com agilidade operacional. Precisamos superar o preconceito contra o ensino à distância como ensino de segunda classe, que está presente nos que controlam o ensino convencional.Temos, no Brasil, muita pouca gente com experiência em ensino à distância e essa experiência não se aprende em cursos rápidos de atualização. O ensino à distância é um processo de aprendizagem complexo e demorado, que necessita de pessoas com mentalidade aberta e que se disponham a experimentar e avaliar formas novas de ensino-aprendizagem. Necessitamos aumentar o número de pessoas especializadas em ensino a distância, preparando-as já, motivando-as para que atualizem seus conhecimentos nesta área.Um dos problemas sérios do ensino básico no Brasil reside na dificuldade do aluno em trabalhar sozinho, em organizar-se para o ensino, quando lhe falta o suporte do grupo. Só uma minoria consegue ter autonomia para não desanimar e acompanhar sozinho todos os programas, fazer todos os exercícios. Por isso é necessário criar redes de apoio, de incentivo ao aluno, que tenha a quem recorrer nas suas dificuldades. Precisa de um mediador, uma pessoa a quem possa recorrer durante o longo processo de ensino-aprendizagem. O papel do tutor regional ou local é importante. Só nos projetos mais avançados, que usam redes eletrônicas, podemos substituir o tutor presencial por um orientador à distância, a quem se pode localizar através do computador.Sabemos das dificuldades que o sistema educacional como um todo enfrenta. Não podemos esperar mais para começar a implantar um plano integrado de formação de professores, de valorização salarial, de investimento em novas tecnologias e em programas atualizados. As empresas precisam dar apoio efetivo ao ensino, porque elas serão diretamente beneficiadas com futuros trabalhadores-cidadãos muito melhor preparados.




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